terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Será arte?
07.janeiro.2000

O que será a arte? A mulher loura sentada numa toalha, na areia da praia, abraçando as pernas? Ou o homem moreno, ao longe, andando com uma picareta no ombro e um saco na mão?

O que será a arte? A mulher que se levanta, sacudindo a areia do corpo claro e do biquíni preto, que anda um pouco, passa na minha frente e caminha dengosa para o mar? Ou o homem que passa apressado por mim e vai até as pedras, até os recifes de corais, com a picareta e o saco azul de lixo vazio na mão?

O que será a arte? A mulher que entra tímida no mar, que se benze, que se arrepia com o frio da água, que mergulha apressada e que joga pra trás os cabelos molhados? Ou o homem que coloca o saco sobre a pedra e começa a cavar, ora aqui, ora acolá, procurando, procurando...?

O que será a arte? Meu olhar à sombra, escorrendo no corpo da mulher loura como gotas de sal e brilho de sol? Ou o olhar curioso dos banhistas para o homem que cava a pedra amolecida de água à procura de... de que, mesmo?

O que será a arte? A mulher que se vira, escorre o cabelo com as mãos e sai do mar devagarzinho, olhando pra mim? Ou o homem que pega uma coisa aqui e joga de volta nas pedras, outra acolá e coloca no saco, enquanto dois banhistas curiosos se aproximam?

O que será a arte? A mulher que atende ao meu olhar, e vem na minha direção e diz O banho 'tá tão gostoso!, e eu digo Você também!? Ou os banhistas que perguntam alguma coisa para o homem com a picareta que responde alguma coisa que faz os banhistas se agacharem e pegarem alguma coisa?

O que será a arte? A mulher que se agacha e me beija mole e devagar, com pouco sal, com muito sal, quente e frio, no lábio e no céu da boca? Ou o homem que volta a cavar e a preencher o saco de lixo azul, livre dos banhistas?

O que será a arte? A mulher que se levanta e caminha de volta para a sua toalha, tendo me dado tudo que eu poderia querer, mesmo sem desejar, mesmo sem pedir, mesmo sem agradecer? Ou o homem que coloca a picareta no ombro e vai sumindo devagar, bem devagar, sem eu jamais saber que coisas ele coloca em seu saco azul?

Eduardo Loureiro Jr.
(O Pátio)

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